Zabah
Coisas Que Eu Digo Quando Estou Em Silêncio.
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Textos
A Cobra que não Morreu Direito.
No povoado da fazenda de Baraúnas vivia Seu Jeremias, velho sabido, desses homens de roça que parecem ter nascido prontos. Forte, valente, barba cheia e um chapéu de palha tão velho que já era quase um farrapo. Nós, meninos, ficávamos calados ao redor dele, como pintos esperando grão, só para ouvir suas histórias de assombração.

Um dia, sentado na sombra do umbuzeiro da venda do seu Romildo, Seu Jeremias começou mais um de seus causos. E só o jeito que ele ajeitava o chapéu já dava arrepio na espinha de todo mundo.

— Meus fi, quem quiser matar cobra, que mate bem matada porque cobra male matada é pior que uma ninhada delas. Disse ele, sorrindo enquanto fumava.

A gente já sabia que vinha coisa.

Seu Jeremias contou que, anos atrás, seu amigo Zé Dozinho saiu cedo pra roça, como homem de roça gosta: antes do sol, antes do galo e antes da preguiça acordar. A esposa dele, Dona Minininha, já tinha preparado tudo: farofa de ovo, um pedaço de pão duro, um taquinho de rapadura e uma garrafa de café que parecia ter sido feita com carvão.

— Até parece que tô vendo o Zé Dozinho, todo feliz olhando Dona Menininha acenar para ele toda apaixonada. Véi male aprumado! — disse Seu Jeremias, rindo.

O dia correu normal. Zé Dozinho plantou mais para passar o tempo do que para render serviço. No fim da tarde, já com a barriga cheia e o corpo pedindo rede, começou a juntar as ferramentas. Foi quando passou perto de uma árvore velha, daquelas retorcidas que parecem ouvir conversa.

De repente, o susto: uma cobra enorme, seca, feia, que se atirou pra cima dele. O sangue esfriou nas veias, as canelas bateram uma na outra e o rosto embranqueceu. “Valei-me, agora, morri!” Disse o velho.

Zé não teve tempo de rezar. Só puxou o facão amolado e zac! — cortou a bicha na hora. A cabeça voou por cima dele, nem viu aonde caiu. O corpo ficou serpenteando no chão pro capeta e Zé sumiu no meio do mato. E nunca mais pensou na cobra...

— Ele saiu dali mais ligeiro que o Tarzan, meus fi! — dizia
Seu Jeremias, abrindo os braços.

Zé chegou em casa, quase não conversou.Tomou um banho de cuia, jantou e capotou em sono. Dormiu que nem um barrão vei.

Até anos depois...

Certo dia, conversando na varanda com Dona Minininha e a rezadeira do povoado, Dona Julia, ele resolveu contar o caso. Assim que descreveu a cobra, a mulher arregalou os olhos, bateu na perna e gritou:

— Homi, tu matou foi cobra encantada! Mandada pelo tinhoso prá te levar! Zé empalideceu na hora.

A velha continuou:

— Se tu cortou a cabeça e não achou… a desgraçada ainda tá viva. Ou tu acha aquela cabeça primeiro, ou ela acha tu. E quando te achar... te mata até sem armar o bote.

Zé tremeu tanto que até a cadeira balançou. Passou dias procurando no meio do mato onde tinha sido o encontro, correndo de um lado para o outro, mas nada de achar a tal cabeça. Cansou, mas desistiu da busca. “O que uma cabeça de uma cobra já morta pode fazer?” Disse seu Zé Dozinho.
Dona Julia só fez balançar a cabeça:

— Pois se prepara. Quem não mata também a cabeça, morre de morte feia, Veio tu cuida, tu cuida.

O tempo passou, meses, anos, e mais um bucadinho de tempo. Zé Dozinho já tinha até esquecido da história — ou fingia esquecer. Mas sempre que ia pra roça, rezava baixinho. Até que, numa tarde quente, ele sentou no terreiro para fumar seu cachimbo. O sol batia no pescoço, e ele reclamou:

— Deixa eu pegar meu chapéu de paia, que esse sole tá de queimar juízo.

Pegou o chapéu de palha — que já nem parecia chapéu —, botou na cabeça e continuou fumando, tranquilo. Foi então que Dona Julia apareceu bem ali de perto dele, branca que nem algodão e gritou como doida:

— Má repara uma marmota dessas o veio dozinho, vivo! Tu ainda tá vivo, homi de Deus? Eu já vinha era prosar com a veia Minininha do teu enterro.

O véio Dozinho, nem tava interessado naquela prosa

— Tô, né? Parece que tá vendo é um fantasma. Meus santinhos me guardaram da tale cabeça da cobra.

No meio da conversa a velha olhou pra ele, apertou os olhos, e disse: “Veio não se bole, se acalma, senão tu morre”. Pegou o cajado que sustentava a veia de pé e deu uma pancada no chapéu do veio que caiu um pouco pra mais longe.

Zé correu devagar, pegou o chapéu de palha que tremia nas mãos dele. E ali, presa na aba de palha, estava uma cabeça ressecada de cobra, olhos duros, dentes travados, agarrada no cordão que encostava nas orelhas dele diariamente — tão perto que parecia sussurrar.

Ele quase caiu duro...

Dona Julia tomou o chapéu das mãos dele, arrancou a cabeça da cobra, rezou sete rezas cantadas, picou a desgraçada da cabeça com o facão e queimou até virar pó.

Zé Dozinho se salvou. E Seu Jeremias terminou a história assombrosa olhando pra gente com aquele sorriso de quem sabe mais do que conta:

— Então, meus fi… matar cobra é fáci. Difíci é matar a cabeça. E se um dia ocês verem uma fera dessas, tratem de acabar com ela antes que ela acabe com ocês, e ói mate logo a cabeça.

E a gente, tudo arrepiado, jurou que nunca mais chegaria perto de árvore torta e seca.
Zabah
Enviado por Zabah em 03/09/2026
Alterado em 03/09/2026
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