Zabah
Coisas Que Eu Digo Quando Estou Em Silêncio.
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A Mulher que Embalava o Barro
Dizem que, antes de haver mulher, houve um pássaro. Não um pássaro qualquer, mas um pássaro de uma asa só, desses que parecem ter sido feitos pelo mundo quando o mundo ainda aprendia a fazer as coisas inteiras. Ele não voava como os outros. Saltava, corria, caía, levantava. E quando olhava para o céu, talvez sentisse aquilo que sentem todas as criaturas que nasceram com alguma falta: uma vontade imensa de alcançar o que nunca puderam tocar.

Foi esse pássaro que encontrou o barro.

Encontrou-o depois de uma chuva, ainda úmido, escuro, brilhando sob o sol. O pássaro bicou a terra, tocou-a com a única asa e começou a mexê-la. Não sabia fazer gente, não sabia fazer anjos, não sabia sequer por que estava fazendo aquilo. Talvez algumas criações aconteçam antes mesmo que o criador saiba o nome do que deseja criar.

Moldou primeiro os pés, depois as pernas, o corpo, os cabelos, o rosto. E quando terminou, havia diante dele uma mulher de barro. Pequena, delicada, quase menina, com duas mãos finas demais para carregar o peso do mundo, mas suficientes para acariciar aquilo que um dia viesse a amar. O pássaro olhou para ela. Ela olhou para o pássaro. Nenhum dos dois disse nada. Talvez porque algumas histórias comecem justamente onde a palavra termina.

O pássaro foi embora com sua única asa batendo contra o vento. A mulher ficou.

Ficou com o barro ainda úmido, com os olhos voltados para o caminho por onde ele desapareceu e com uma estranha sensação de que havia nascido para alguma coisa que ainda não sabia nomear. Caminhou até o rio. Sentou-se à margem. Viu a própria imagem refletida na água e percebeu que era bonita, mas havia nela uma ausência. Uma falta pequena e profunda, dessas que não cabem no corpo e, por isso, acabam morando na alma.

Ela queria ser mãe.

Não sabia de onde vinha aquele desejo. Talvez estivesse no barro. Talvez estivesse no pássaro. Talvez viesse de muito antes, de uma memória que o barro guardava desde quando ainda era terra. Só sabia que queria ter alguém para embalar, alguém para cantar, alguém para chamar de filho.

Então fez com as próprias mãos aquilo que ninguém havia feito por ela.

Tomou um pouco do barro que ainda lhe restava, amassou-o devagar e começou a moldar uma criança. Fez um pequeno corpo, dois pés, duas mãos, uma cabeça, uma boca silenciosa. Não colocou nele o que não possuía: não lhe deu asas, não lhe deu voz, não lhe deu destino. Deu-lhe apenas aquilo que conhecia — terra, forma e amor.

Quando terminou, colocou o menino no colo.
Era seu filho.
Seu pequeno bebê-terra.

E talvez fosse isso que o pássaro de uma asa só havia deixado como segredo: a possibilidade de que a terra pudesse nascer outra vez dentro da própria terra.

Desde então, a mulher nunca mais caminhou sozinha. Levava o menino consigo como quem carrega uma pequena parte do próprio coração fora do peito. Dava-lhe banho com gotas de chuva, ajeitava seus cabelos de barro, limpava-lhe o rosto com a ponta dos dedos. Quando anoitecia, sentava-se na varanda e começava a cantar.

Ouviu o silêncio, o som e o mar.
Ouviu seu choro, seu grito e seu penar.
E de tudo que a vida lhe dera, descobriu que cantar, tocar e amar talvez fossem a mesma coisa.
Por isso cantava.

E balançava.
Suas mãos finas, nanam o neném.

Balançava para frente, balançava para trás. Às vezes fechava os olhos e imaginava que o menino respirava. Outras vezes jurava ouvir um pequeno riso. E havia noites em que o vento passava pela casa e mexia as folhas das árvores, e ela acreditava que o filho estava respondendo à sua canção.

O tempo, entretanto, tem uma maneira cruel de tocar aquilo que amamos.
O barro começou a secar.
Primeiro o menino.
Depois ela.

Vieram pequenas rachaduras nas mãos, nos braços, no rosto. A mulher percebeu, mas não parou de embalar. Talvez tivesse medo de que, se soltasse o filho, ele desaparecesse. Talvez tivesse medo de que, se parasse de cantar, descobrisse que nunca ouvira sua voz.

Até que um dia o menino deixou de parecer apenas adormecido.
Estava frio.

Imóvel.
Silencioso.
Ela chamou.
Nada.
Tocou seu rosto.
Nada.
Encostou-o ao peito.
Nada.
O menino havia partido.
Mas ela continuou balançando.

Porque há momentos em que a alma sabe o que aconteceu, mas o coração se recusa a assinar o documento da perda.

Então ela ficou ali.
Com o filho morto nos braços.
Com o barro secando entre os dedos.
Com a cadeira rangendo baixinho.
Para frente.
Para trás.
Para frente.
Para trás.

O som que a rodeava a alma acalmava, assustava, enlouquecia. E naquele quarto havia tudo: o silêncio, o choro, o grito, o mar, a vida e a morte. Tudo misturado dentro de uma mulher que já não sabia se embalava o filho ou se embalava a si mesma.

Talvez fosse isso que a maternidade havia lhe ensinado: que algumas coisas não deixam de existir quando morrem. Apenas mudam de lugar.

O menino saiu dos braços e foi morar na memória.
A voz saiu da boca e foi morar no silêncio.
O amor saiu do corpo e foi morar na alma.
E ela continuou.
É meiga a paz, pensou, quando finalmente percebeu que não precisava mais esperar.
A vida é mais que uma hora.
Mas o momento é só agora.
E tudo que é vida evapora.
Até o barro.
Até o pássaro.
Até a mulher.
Até o menino.

Ela olhou para suas mãos. Eram tão finas que já quase não pareciam mãos. Eram pequenas raízes de terra seca, dedos atravessados por rachaduras. Foram elas que fizeram o filho. Foram elas que o seguraram. Foram elas que o embalaram quando já não havia mais vida para embalar.

Aqui fico.
Aqui acabo.
Aqui termino.
E, antes de desaparecer, ela ainda sorriu.
Talvez tenha visto o pássaro.
Talvez tenha visto o céu.
Talvez tenha visto uma segunda asa crescendo onde antes havia apenas ausência.
Ninguém sabe.

Na manhã seguinte, encontraram a cadeira vazia.
Sobre ela, dois pequenos montes de barro.
Um maior.
Um menor.
Juntos.
Como mãe e filho.

E, do lado de fora, havia apenas uma pena.
Uma única pena.
Não se sabe se pertencia ao pássaro de uma asa só.
Mas desde aquele dia, quando o vento passa pela velha casa, a cadeira parece se mover.

Para frente.
Para trás.
Para frente.
Para trás.
E quem escuta com o coração talvez ainda consiga ouvir uma mulher cantando.
Talvez ainda consiga ouvir o mar.
Talvez ainda consiga ouvir o menino.
Talvez consiga ouvir a terra.
Porque há almas que se vão, mas deixam no mundo um movimento.

Há filhos que morrem, mas continuam sendo embalados.
Há barro que seca, mas não deixa de ser terra.
E há mulheres que, mesmo depois de vazias, continuam carregando nos braços aquilo que o amor se recusou a perder.
Zabah
Enviado por Zabah em 04/09/2026
Alterado em 04/09/2026
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