Bom dia nada, tio.
Hoje cedo, a manhã ainda parecia estar acordando quando vi Nicolas.
Ele vinha no colo da mãe, todo desabado sobre o ombro dela, como quem tinha sido arrancado do sono por alguma urgência que, sinceramente, não lhe dizia respeito.
Estava de uniforme da creche. A carinha era de sono, mas havia alguma coisa por trás daqueles olhos apertadinhos. Um movimento escondido, uma energia guardada, um pequeno furacãozinho ainda procurando forças para começar o dia.
Numa mão, um pedaço de pão amanteigado.
Na outra, um dedinho de legal.
E foi assim, entre o pão e o aconchego, que encontrei Nicolas.
— Bom dia, Nicolas!
Ele me olhou.
Não foi exatamente um olhar de resposta. Foi mais um olhar de quem estava tentando descobrir quem havia autorizado aquela manhã a começar.
Eu, talvez por ingenuidade, insisti:
— Bom dia, Nicolas!
Ele se ajeitou no ombro da mãe, apertou-se mais um pouquinho contra ela e, com a voz ainda molhada de sono, decretou:
— Bom dia nada, tio.
Fez uma pausa.
E então veio a explicação, simples, definitiva, irrefutável:
— Eu tô é com sono.
Pronto.
Não havia argumento.
A manhã podia esperar.
Nicolas tinha coisas mais importantes para resolver naquele momento: o colo da mãe, o pão amanteigado, seu misterioso dedinho de legal e aquele sono que ainda lhe pesava nos olhos.
Fiquei rindo sozinho.
Porque algumas crianças acordam para o mundo.
Outras, como Nicolas, primeiro negociam com ele.
Zabah
Enviado por Zabah em 16/09/2026
Alterado em 16/09/2026
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